Gabriel Leone se prova cantor sagaz, sem jogo de cena, ao estrear show situado na 'sala escura do sentimento'
29/04/2026
(Foto: Reprodução) Gabriel Leone estreia o show 'Minhas lágrimas' no Manouche, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), na noite de ontem, 28 de abril
Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Minhas lágrimas
Artista: Gabriel Leone
Data e local: 28 de abril de 2026 no Manouche (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
♬ Os olhos de Gabriel Leone ficaram marejados quando o artista começou a cantar “Vento no litoral” (Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo, 1991) no palco do clube carioca Manouche. Não foi jogo de cena. O intérprete estava visivelmente com emoção interiorizada ao dar voz a essa canção reflexiva e melancólica do repertório da banda Legião Urbana.
“Vento no litoral” foi um dos muitos pontos altos da estreia do primeiro show solo deste grande ator carioca que se assumiu cantor com o lançamento em março do álbum de estreia de Leone, “Minhas lágrimas” (2026).
Na estreia na noite de ontem, 28 de abril, o show “Minhas lágrimas” roçou a perfeição do disco produzido por Marcus Preto e Tó Brandileone, com repercussão positiva nas redes sociais que deve gerar expectativa no público paulistano para a estreia do show em São Paulo (SP), programada para a próxima terça-feira, 5 de maio, no Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis.
Diante de plateia interessada em música, sem hype e sem convidados vips disputando atenção com o artista, Gabriel Leone se confirmou cantor sagaz, com entendimento pleno do sentido das músicas que escolheu para o álbum e para o show.
É um repertório situado na “sala escura do sentimento”, como diz verso de “Segredo” (1986), a sinuosa balada bluesy de Djavan que Leone cantou no fim do show, antes do bis, caindo bem no suingue funky orquestrado pela power banda formada pelo tecladista Agenor de Lorenzi, o guitarrista Conrado Goys, o baixista Fábio Sá (também no posto de diretor musical) e o baterista Vitor Cabral.
Gabriel Leone se acompanha ao violão em set solo do show 'Minhas lágrimas'
Rodrigo Goffredo
O roteiro do show extrapolou o repertório do disco em números como “Me faça um favor” (Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra, 1972) – tema do repertório do trio de rock rural Sá, Rodrix & Guarabyra – e “Vida cigana” (Geraldo Espíndola, 1980), canção propagada na voz de Tetê Espíndola.
Essas duas canções de atmosfera rural foram revividas por Leone em set solo em que o cantor se acompanhou ao violão arranhado com a sensibilidade musical que rege a alma do artista. Ainda dentro do universo interiorano, mas já com a banda de volta ao palco, o cantor terçou vozes com os graves da convidada Lucina em “Êta nóis” (Luhli e Lucina, 1984), perseguindo o tom caipira do tema lançado por Ney Matogrosso (convidado de Leone na gravação do álbum).
Em sintonia com o conceito do álbum “Minhas lágrimas”, Gabriel Leone não fez cover no show. O intérprete sempre procurou um caminho particular para abordar cada música. No show, isso ficou evidenciado no bis, quando Leone reinventou “Um pro outro” (1986), quebrando a moldura pop da canção lançada por Lulu Santos há 40 anos, o que impediu o público de cantar junto com Leone no arremate do show, sem surtir o efeito desejado pelo artista.
Se o show resultou musicalmente irretocável, o roteiro precisa de sutis ajustes. “Mil e uma noites de amor” (Pepeu Gomes, Baby do Brasil e Fausto Nilo, 1985) – outra novidade do show, assim como a já mencionada “Um pro outro” – é pop expansivo com final feliz que soou meio deslocado no meio do show, povoado por canções que flagram o intérprete imerso no “pântano de solidão” mencionado em verso do “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976), número que Leone fez com intensidade contrastante com a delicadeza aliciante do canto de “Nós dois” (Celso Adofo, 1983).
Lucina participa da estreia do show 'Minhas lágrimas', de Gabriel Leone, cantando “Êta nóis” com o artista
Rodrigo Goffredo
Afinal, o repertório do disco e show “Minha lágrimas” se nutre de amores contidos, saudades doídas, ausências sentidas, angústias existenciais – mote da balada “Antes da chuva chegar” (Guilherme Arantes, 1976), sedutora na abertura do roteiro – e desalentos entranhados em músicas como “Choro das águas” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977) e “As portas do meu sorriso” (Fagner e Paulinho Tapajós, 1979).
A solidão está sempre batendo à porta do cancioneiro escolhido pelo artista com coerência e personalidade que engrandeceram o álbum e, consequentemente, o show pela força de repertório surpreendente, selecionado sem obviedades e eventualmente turbinado com a batida do rock, como o reconstruído samba “Cara limpa” (Paulo Vanzolini, 1974).
“ [...} Correra mundo / Procurando o tempo todo tão só / Na multidão / Até encontrar / Alguém / Que bastasse para me povoar / A solidão / Logo esfrego os olhos / Tudo é ilusão”, resignou-se o intérprete ao dar voz e alma aos versos do blues “Assim sem mais” (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão, 1991).
No todo, a estreia do show “Minhas lágrimas” mostrou Gabriel Leone em comunhão com a deusa música, inteiro no palco, sem jogo de cena, sem jogar para a galera. O cantor se garantiu no show sem se escorar no prestígio do ator.
Gabriel Leone inclui músicas de Legião Urbana, Lulu Santos, Pepeu Gomes e Sá & Guarabyra no roteiro do show 'Minhas lágrimas'
Rodrigo Goffredo
♪ Eis as 15 músicas do roteiro seguido em 28 de abril de 2026 por Gabriel Leone na estreia do show “Minhas lágrimas”, no Manouche, no Rio de Janeiro (RJ):
1. “Antes da chuva chegar” (Guilherme Arantes, 1976)
2. “Choro das águas” (Ivan Lins e Vitor Martins, 1977)
3. “Cara limpa” (Paulo Vanzolini, 1974)
4. “Vento no litoral” (Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo, 1991)
5. “As portas do meu sorriso” (Fagner e Paulinho Tapajós, 1979)
6. “Assim sem mais” (João Bosco, Antonio Cícero e Waly Salomão, 1991)
7. “Bolero de Satã” (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1976)
8. “Nós dois” (Celso Adofo, 1983)
9. “Mil e uma noites de amor” (Pepeu Gomes, Baby do Brasil e Fausto Nilo, 1985)
10. “Me faça um favor” (Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra, 1972)
11. “Vida cigana” (Geraldo Espíndola, 1980)
12. Êta nóis” (Luhli e Lucina, 1984) – com Lucina
13. “Segredo” (Djavan, 1986)
Bis:
14. “Minhas lágrimas” (Caetano Veloso, 2006)
15. “Um pro outro” (Lulu Santos, 1986)